segunda-feira, 20 de abril de 2015

Diferente. É assim que defino a minha fase da vida. Aquele momento tosco em que tudo parece correr ao contrário, e corre, fora da nossa vida pessoal. Pais matam filhos, maridos matam mulheres, querem-se assassinar homossexuais, caem aviões e há escândalos, afundam-se barcos e não se passa nada, mas “Je suis Charlie” também.

Subo os degraus dois a dois, ou três a três, quatro a quatro…voo até vocês. Descalço as botas, escondo-as no vão das escadas, digito o código, largo tudo e passo as mãos na cara enquanto mudo o chip. Ali sou o pai, não sou o senhor, sou o marido, não sou o camarada, sou o Manuel, não sou o meu apelido.  

Já lá vai o tempo em que eu achava que o cheiro da cabeça de um bebé não curava mágoas, que uma mão só me acalmaria o pânico se trouxesse com ela um comprimido potente, uma solução milagrosa. Agora? Agora, por muito paradoxal que possa parecer, sou uma pessoa mais fria fora de casa, a pessoa mais ligada à corrente quando largo aquelas amarras profissionais. Só importa quem cá está.

Espero que o acto de rir não tenha contabilização de saldo. Se tiver, e espero que não tenha, preciso que me ensinem a carregar a minha conta, pois devo estar prestes a gastar o crédito todo.


Venham mais cinco putos lindos, contigo, só contigo. Contigo, sou melhor e o melhor já não quer saber como vai trabalhar no dia a seguir, se é que vai, se é que não é desta que fugimos e construímos um paraíso em maior escala. Eu vendo a mota, vendes os carros e a casa, vendemos as armas, vendo o rim se for preciso e até doo parte do meu fígado. Fugimos? 

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