segunda-feira, 24 de março de 2014

"Contrail"


Aprendi, nos últimos dias, que nunca percebemos ao certo o quanto mudámos com a idade até ao momento em que alguém do passado nos relembra de como éramos.
Perguntas simples, outras nem por isso, que nos trazem à memória gostos antigos, manias, sonhos, pequenos tiques que nos caracterizavam, que foram julgados eternos e, só porque a idade muda, mudaram.
Perguntaste-me, brincalhona, porque sempre foi motivo de gozo, se continuava a perder a bola sempre que passava um avião, se o seguia com o olhar com um sorriso apaixonado nos lábios, ou se cruzava, ainda agora, os dedos ao rasto de um mais rápido. Suspirei, dramático, e repliquei com um “Quem sabe, quem sabe! Por via das dúvidas comecei a jogar só em espaços cobertos!”.
Trocam-se umas gargalhadas, uns quantos “que vergonha!”, “Eu não fazia isso, fazia?”. Surpreendemo-nos com as nossas próprias atitudes, no entanto não duvidamos, éramos capazes disso e de muito mais.
Relembrei o rapaz que eu era, nos meus tenros treze, catorze anos, que encarava tudo como se de uma missão secreta se tratasse, quer fosse uma tarde de cinema ou um teste de química.
Lembrei-me das horas de almoço, das minhas escapadelas para jogar, nem que fosse cinco minutos, aquele jogo que nem me recordo o nome, mas adorava. Dos compassos de espera no vão das escadas, “escondido” dos teus pais que, sei agora, sabiam que eu lá estava e, propositadamente, batiam com a porta de forma mais audível para que eu pudesse tratar do resto da minha missão.
Parecia tudo tão errado e tão certo ao mesmo tempo.
Tenho saudades do tempo em que os meus gostos dependiam de quem gostava comigo, de que tudo estava tão bem delineado que se tornava palpável, que eu era eu, sem me importar minimamente com os outros, com as outras, com alguém que não eu.
Constato que continuo a preferir as “secas” que passo ao lado de alguém que conta umas graçolas, que continuo a gostar mais de certos trabalhos que de outros, só porque tenho alguém de quem gosto ao meu lado.
Passaram-se tantos anos, tantas coisas mudaram. Ao apagar a TV tempo fica na memória o cheiro da relva molhada pelas chuvadas de Inverno, dos aviões a passar, espaçadamente, e do tempo dividido entre um objecto redondo e o chão encharcado.
Eu, na “primavera” da vida, refastelado na relva molhada, com os braços ao lado do corpo, a rir de uma ou de outra história ou aventura inventada, por ti ou por outros, a olhar para o céu cinzento do Inverno, lembrando-me, por milésimos de segundo, que o teste de Matemática estava para breve, que os TPC estão pendentes e não me apetece nada sair dali, deixar de sentir o cheiro da relva, o frio nas costas, a companhia de quem se estende a meu lado, tornando tudo muito mais agradável.
Era tudo tão complicado sem eu me preocupar.
Ao escrever isto deu-me para sorrir. Um dia, espero eu, tornar-me-ei a deitar naquela mesma relva. Talvez brevemente, vou fazer por isso antes que chegue o sol.
E sim, já que perguntaste, por vezes ainda cruzo os dedos ao ver o rasto dos aviões. O menino que há em mim ainda não perdeu a esperança na concretização dos seus “pedidos aos aviões”.

Escrito a 25\11\2010


A pessoa do "passado" é, agora, a pessoa mais presente na minha vida.


Há coisas incríveis, não há?

3 palmadinhas no ombro:

Nada disse...

Tem piada que seja a pessoa mais presente na tua vida...e tem sempre piada a importancia que reviver o passado tem em nós. É um acordar para a realidade =)

(a letra do teu blog está tão pequenina Manuel...custa ler textos grandes...ou secalhar sou eu que estou vesga...era so uma observação ^^)

Lia disse...

Há mesmo!

Manuel disse...

Nada, a letra deve estar mesmo pequenina. A minha mulher já me tinha dito, mas como é semi-vesga (estou a exagerar) pensei que era mania dela. Vou tentar mudar isso.

Lia, muitas muitas.