segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um jantar adorável (ou: O jantar a que eu gostava de não ter ido).

O meu pai arranjou namorada. Segundo ele, é uma relação séria, que já não tem idade para andar a experimentar carrosséis. Infelizmente, já a tinha conhecido antes.

Entrei em casa do meu pai armado com o meu semblante carregado: Estava ali obrigado, não queria estar ali e não perdoaria a minha irmã por se ter baldado em cima da hora. A minha mulher, conciliadora, avançou à minha frente. Desse momento em diante, foi só descambar.

Nenhum homem adulto está preparado para imaginar a vida sexual do pai, muito menos quando não é com a mãe. Neguem as vezes que quiserem, seus aldrabões. Portanto, nada nesta vida me preparou para ver aquela mãozinha a agarrar a mão que me apertou o meu primeiro nó de gravata.

Ali estava ela, uns dois dias mais velha que eu, no seu estilo “quarentona falsa”, a cuspir idade adulta para o meu penteado despenteado à força de American Crew Pomade e eu a respirar fundo, muito fundo, para ter uma desculpa para o meu silêncio enquanto o meu pai suspirava que nem um patife acabado de descobrir a presa.

Começou a conversa de elevador e eu, no auge da certeza de que não queria estar ali, a tentar manter-me à margem e…:

“O (inserir nome do pai do Manuel) Z contou-me que vocês se conheceram na escola…”.

Atentem, eu odeio que me tratem por senhor, por você. Gosto que me tratem por tu, de igual para igual, mas neste caso específico detestei. Na ponta da língua já me estava a rolar um: “Andamos juntos na tropa?” quando a SANTA da minha mulher atalhou e confirmou, com detalhe, a veracidade da afirmação. Não me contive muito mais…:

“Por acaso, a tua cara não me é estranha, mas não eras da nossa turma… Eras de Artes?”, perguntei eu com o meu ar mais sério. 

O meu pai tossiu o meu nome, várias vezes, mas a conversa prosseguiu com uma gargalhadinha forçada. Um ponto para o Manuel e um olhar “Vai ser a tua primeira noite no sofá” da Cenoura.
Ela, com aquela camisa branca, de um tecido acetinado, com botões pretos que me apoquentavam e desconcentravam, com um ar muito sóbrio, a atirar gostos para o ar, acompanhada pelo meu pai que puxava a brasa à sardinha, como que esperando que eu reconhecesse que a namoradinha partilha gostos comigo. COMIGO!

“A J. gosta muito de Pessoa”, e eu deixei de gostar de Fernando Pessoa na hora;  “Gosta do Anthony Hopkins!” e deixou de ser um dos meus favoritos, estando a rainha também errada. “Gosta muito de filmes de suspense, policiais.”, ao que se ouviu “Agora estou numa de filmes de animação!”, o que surpreendeu a minha mulher.

Tudo se desenvolveu nesta óptica até à sobremesa.

“A J. fez bolo de bolacha, Manuel.”

Foi assim que confessei que afinal, décadas depois, nunca gostei de bolo de bolacha, nem de tarte de pastel de nata (que era a alternativa), sempre comi por obrigação.

Conclusão da noite:

O Manuel está a preparar-se para acabar a noite a ver o filme Frozen (com a promessa de que vamos ver a Revolta dos Perus ao cinema, ainda esta semana), sem comer qualquer tipo de bolo que, vingativamente, a J. insistiu que a minha mulher trouxesse, sabendo que eu ODEIO.

A minha mulher parece-me animada com a situação, ainda não é hoje que dorme sem mim.




3 palmadinhas no ombro:

CM disse...

Posso confessar que me fartei de rir com o post?? :) Mas percebo a tua "agonia", de certa forma...Não pode ser fácil. Coragem!

Lia disse...

Prometo que não vou rir mais de meia hora

(ahahahahahahaha)

Manuel disse...

CM, considera-te confessada. Quatro Avé Marias e uns 500 credos, que aquilo é grande e penoso :D.

Lia, aplica o mesmo que a CM...