segunda-feira, 20 de abril de 2015

Diferente. É assim que defino a minha fase da vida. Aquele momento tosco em que tudo parece correr ao contrário, e corre, fora da nossa vida pessoal. Pais matam filhos, maridos matam mulheres, querem-se assassinar homossexuais, caem aviões e há escândalos, afundam-se barcos e não se passa nada, mas “Je suis Charlie” também.

Subo os degraus dois a dois, ou três a três, quatro a quatro…voo até vocês. Descalço as botas, escondo-as no vão das escadas, digito o código, largo tudo e passo as mãos na cara enquanto mudo o chip. Ali sou o pai, não sou o senhor, sou o marido, não sou o camarada, sou o Manuel, não sou o meu apelido.  

Já lá vai o tempo em que eu achava que o cheiro da cabeça de um bebé não curava mágoas, que uma mão só me acalmaria o pânico se trouxesse com ela um comprimido potente, uma solução milagrosa. Agora? Agora, por muito paradoxal que possa parecer, sou uma pessoa mais fria fora de casa, a pessoa mais ligada à corrente quando largo aquelas amarras profissionais. Só importa quem cá está.

Espero que o acto de rir não tenha contabilização de saldo. Se tiver, e espero que não tenha, preciso que me ensinem a carregar a minha conta, pois devo estar prestes a gastar o crédito todo.


Venham mais cinco putos lindos, contigo, só contigo. Contigo, sou melhor e o melhor já não quer saber como vai trabalhar no dia a seguir, se é que vai, se é que não é desta que fugimos e construímos um paraíso em maior escala. Eu vendo a mota, vendes os carros e a casa, vendemos as armas, vendo o rim se for preciso e até doo parte do meu fígado. Fugimos? 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Uma pausa na nossa relação.

Ali estava eu, olhando-te de cima, da minha posição favorita, escutando o som ritmado característico do muito que somos capazes juntos, de tudo aquilo que podíamos fazer, se pudéssemos fazer. Líquido escorria-me pela fonte e não saberia discernir suor de lágrimas, lágrimas de gotas de chuva, sei que estava terrificado, desconsolado, infeliz, completamente destruído.
Saí apressadamente de cima de ti, procurando esconder-te nos confins do mundo, para não ter de olhar para ti e cair em tentação, destruindo, para sempre, a nossa relação por prazer temporário.
Galopante, subi as escadas, aterrando esbaforido no leito que me poderia trazer algum conforto após tamanha desilusão. Perscrutei o silêncio em busca de uma palavra de alento. Um suspiro longo, de quem já espera o que aí vem, esperando que eu proferisse as solenes palavras:

“Cenoura, está um temporal… Tenho de ir enlatado*.”

Abraçaste-me (abraçaram-me?), como quem abraça uma criança que acaba de perder o peixinho dourado, fazendo-me sentir que tenho motivos para ficar em segurança. 

* "Ir enlatado" corresponde ao acto de ir de carro. Quem anda apoiado em duas rodas, ou em dois pés, conhece o termo. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Às vezes, gostava de andar com a minha action cam na lapela vinte e quatro horas por dia. Se assim fosse, conseguiria explicar o quão boa foi a sobremesa de ontem, vendo esvoaçar as bandeiras junto ao rio, a conversar com a minha mulher, quanto uma menina, a rondar os três anitos, decidiu vir agarrar-se ao varandim à nossa frente e cantar uma música lamechas que não eu não conseguiria recompor, mas que acalentou o espírito num dia muito complicado. 

domingo, 22 de junho de 2014



Cenário: Manuel e Cenoura a fazer a caminhada matinal. Cenoura em (recém-aprendido) sofrimento. Tempo a dar sinais de chuva.

Manuel: Voltamos para casa? 
Cenoura, agarrando-me na mão e olhando para os meus olhos: Explica-me... porque é que não comprámos antes um buldogue francês*?


*Aparentemente, os jovens casais optam por adoptar um cão (o buldogue francês está muito na moda) em vez de engravidarem e terem filhotes. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Assim um(a) post(a) a correr...

Imaginem o cenário.

Um homem, uma mulher, um carro com GPS. O homem, assumidamente, não sabe o caminho, não faz ideia do que vai encontrar e tem um ligeiro receio de ir parar a uma zona com indígenas. A mulher sabe sempre o caminho, pelo menos na teoria, nunca se perde e, consta na utopia social de alguns grupos, inventou a própria bússola. O GPS, como todos os GPS, não deve estar actualizado, se é que alguma vez esteve. 

Chega ao fim de uma estrada que aparentava não o ter e ouve-se um:

"A 700 metros, na rotunda, siga pela terceira saída". 

Imaginem que eu queria ir para Faro, aquela rotunda, exactamente na terceira saída, indicava PORTO, a letras gigantes. 

Lá suspiro e digo um redundante: "Estamos $#$%$&, Cenoura". Que não, que não estamos, que ela sabe exactamente onde está, para sair antes na segunda, que o GPS percebe nada daquilo. 
Nunca fui de contrariar a minha mulher, muito menos o faço agora. Saio na segunda saída e somos apresentados a uma estrada igualmente longa. Engulo um "Ai a minha vida", olho em volta e finjo que ajusto o som. 

Andamos uns valentes metros e ouve-se um: "A 700 metros (sempre a 700), no cruzamento curve à esquerda". O cruzamento, meus caros, não apareceu, logo está a situação resolvida. A minha mulher sugere algo improvável, muito improvável e assustador e eu cumpro os seus desejos, mas ao contrário. 

"Chegou ao seu destino", ouve-se uns minutos depois.

"Vês? O GPS não percebe nada da coisa. Ainda bem que me tens a mim", diz-me ela. 

Não sei como é que vou fazer quando estiver com os nervos a conduzir para o parto da criança. Acho que o meu filho vai nascer num monte alentejano. 

sábado, 19 de abril de 2014

Um amigo da minha mulher, que agora é nosso, vai casar. Dei por mim a falar com ele, entre somersby e argolinhas, das nossas mulheres, das nossas relações, de como uma relação, por muito boa que seja, pode ser diferente.

Lá me dizia ele que sentiu-se muito calmo quando percebeu que a relação de amizade se ia transformar em algo mais, que soube exactamente o que fazer, o que dizer, onde colocar as mãos, em que momento. Que decorreu tudo a uma velocidade furiosa mais do que normal.

No meu caso, no nosso caso, não foi assim.

Lembro-me do tempo que demorei a dar o primeiro passo. Do pavor que senti da primeira vez que percebi que sim, que estava estupidamente apanhado por aquela fusão de características brutais que é a minha mulher. Pavor de não ser mútuo, pavor de não estar preparado para avançar tão cedo para algo tão…tão tudo.

Costumo dizer, num tom de brincadeira muito sério, que foi a primeira mulher que me fez enfiar a cabeça debaixo de água apenas colocando a mão na minha, que me fez cogitar acerca de tudo. E foi. Ainda hoje, ninguém me descontrola e me faz controlar tão bem como ela, espero que nunca aconteça.

Quando for a vez dele de dar aquele passo, e está pelo fio, espero que viva a mesma sensação que me passou pelas veias. Aquela vontade de calar toda a gente com um berro “É MINHA”, a compulsão de dizer , até às beatas da igreja “Estou tão feliz, estou tão feliz, estou tão feliz. Gosto tanto dela, gosto tanto dela” enquanto se passeia de um pé para o outro, pois aquela distância do silêncio, mesmo que por momentos, é insuportável e, ao mesmo tempo, a distância mais perfeita da nossa vida.


Não é o papel, não é o nome no documento do seguro de vida. É aquela segurança quentinha de que ninguém nos tira um do outro, mesmo que não faça sentido, mesmo que mais ninguém perceba.  
Se eu podia ver outras coisas no youtube? Claro que sim, mas torna-se complicado.

No trabalho já ninguém me atura, vamos começar a contaminar aqui a blogosfera.